MPPB e TCE apuram fraude em licitação de quase R$ 700 mil e curso de “Mestre do Hambúrguer” em Marizópolis-PB

A Prefeitura de Marizópolis, Sertão paraibano, tornou-se alvo de uma grave e detalhada investigação conduzida pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) e acompanhada pelo Tribunal de Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB). Em pauta, o Pregão Eletrônico nº 00004/2025, com valor global de R$ 696.000 (seiscentos e noventa e seis mil reais), destinado à contratação de empresa para gestão de estágios e qualificação profissional online, vencido pela empresa Vaggon Aceleradora Profissional Ltda. Clique AQUI e confira a íntegra do documento!

De acordo com o Inquérito Civil  001.2025.068844, instaurado pela 4ª Promotoria de Justiça da Comarca de Sousa e encaminhado ao TCE pelo Procurador-Geral de Justiça, Leonardo Quintans Coutinho, o certame acumula indícios de direcionamento, restrição de concorrência e tentativa de burlar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A denúncia inicialmente foi feita pelo vereador Carlos José de Sousa (Repúblicanos) em 2025.

Burla ao concurso público e gastos de pessoal no limite

Segundo o Ministério Público, a contratação de estagiários estaria sendo usada como “cortina de fumaça” para substituir contratações temporárias e ocultar o real impacto da folha de pagamento municipal, fugindo dos limites da LRF e do dever de realizar concurso público.

“O presente Inquérito Civil Público visa apurar burla à realização de concurso público e tentativa de fuga do limite de gastos com pessoal estipulados pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) por parte do Município de Marizópolis, além de fraude à licitação… na medida em que o Município tem, supostamente, optado pela realocação de servidores contratados por excepcional interesse público como ‘estagiários’, em burla aos órgãos de controle…”, diz trecho da denúncia.

Vereador Carlos José de Sousa, autor da denúncia. Foto: redes sociais

Auditoria Temática do TCE-PB (nº 01/2025) já havia alertado que Marizópolis atingiu o patamar crítico de 81,90% na proporção de contratados temporários/estágios em abril de 2025, estourando absurdamente o limite de 30% estipulado pela Resolução RN-TC 04/2024.

Cursos bizarros na grade: “Mestre do Hambúrguer” e “SEO Ninja Black”

Um dos pontos mais alarmantes apontados pela promotora Flávia Cesarino de Sousa Benigno diz respeito à grade curricular de cursos exigida no Termo de Referência do edital. Em vez de disciplinas alinhadas às diretrizes do Ministério da Educação (MEC), o documento exigia cursos típicos de mercado informal e infoprodutos privados:

“O Módulo de Cursos Online (itens 56 a 58 do TR) exige um catálogo mínimo de cursos com títulos e cargas horárias extremamente específicos, tais como ‘Afiliado na Shopee (15h)’, ‘Drop Master (14h)’, ‘Técnicas de SEO Ninja Black (35h)’, ‘Lucrando com PLR (15h)’ e ‘Mestre do Hambúrguer (15h)’. Esses títulos não pertencem a grades curriculares educacionais tradicionais alinhadas às diretrizes do MEC (apesar do edital afirmar que sim), mas sim ao portfólio exato comercializado por infoprodutores ou pela própria empresa vencedora, fulminando o caráter isonômico do certame”, mostra a peça denunciate.

Cláusulas “sob medida” e exigência de alvará sanitário para software

MPPB detalhou diversas cláusulas “desarrazoadas e ilegais” inseridas no edital, que teriam sido desenhadas sob medida para afastar concorrentes locais e direcionar a vitória à Vaggon:

  • Restrição territorial rígida: o item 6.4 do TR exigia que a licitante possuísse o mesmo CNPJ atuando em todos os estados da Federação, impedindo a participação de agentes de integração regionais ou locais;

  • Profissional ultraespecífico: exigência de que a empresa contasse com profissional de Ciência da Computação com mais de 10 anos de experiência específica no nicho de integração de estagiários. O MPPB cravou: “Exigir tempo tão estrito em nicho tão específico de mercado é uma cláusula clássica de direcionamento de licitação”;

  • Exigência de alvará sanitário: o edital exigiu Licença Sanitária expedida pela Vigilância Sanitária para uma empresa cujo objeto é o fornecimento de software e intermediação de estágios. A Promotoria de Justiça MP classifica a exigência como “completamente impertinente e ilegal”.

Pulverização orçamentária e conflito de Interesses

Outra manobra identificada foi a alocação dos custos do contrato em diversas secretarias (Saúde, Infraestrutura, Assistência Social e Gabinete do Prefeito), embora a atuação estivesse concentrada na Educação. O objetivo seria diluir as despesas para mascarar o verdadeiro volume da folha educacional.

Caso foi encaminhado ao Procurador Geral de Justiça, Leonardo Quintans. Foto: MPPB

A apuração também mira um suposto esquema de favorecimento privado dentro da gestão:

“Há notícia de suposto direcionamento e conflito de interesses (desvio de finalidade), uma vez que os trabalhadores estariam sendo compelidos a realizar cursos pagos junto à instituição de ensino à distância denominada ‘Gilgal’, na qual o próprio Secretário de Educação atuaria na iniciativa privada”.

Investigação de campo e alerta de prisão

Para conferir se a vencedora Vaggon Aceleradora Profissional Ltda é uma empresa fantasma ou de fachada, a Promotoria solicitou diligências em Recife, Pernambuco, incluindo fotos da fachada da empresa, dados do Ministério do Trabalho (RAIS) e faturas de energia elétrica junto à Neoenergia PE.

Além disso, o MPPB requisitou informações ao Procurador-Geral do Município de Marizópolis, sob pena de enquadramento em crime com pena de 1 a 3 anos de reclusão em caso de omissão ou recusa (Art. 10 da Lei de Ação Civil Pública).

Situação atual no TCE-PB

No Tribunal de Contas do Estado, o processo sob o nº 04999/26 foi autuado e aceito formalmente como Denúncia/Representação. O conselheiro Ouvidor Marcus Vinícius Carvalho Farias remeteu o caso para a Divisão de Auditoria (DIAG3) e ao relator conselheiro Arnóbio Alves Viana para instrução e julgamento de eventuais medidas cautelares.

Site Footer

Sliding Sidebar

O Fuxiqueiro – Todos os direitos reservados.