Coisas que vivi e agora posso contar (3)

Não demorou muito para se adaptar ao novo ambiente. Os mais antigos trataram de enturmar o rapaz do interior no mundo da safadeza. E o palco foi o viaduto de Cavaleiro, onde todos se punham de vigia nas tardes de domingo para pescar namoradas.

O mais endinheirado e perfumado era Ademar. Tinha dinheiro, o pai mandava toda semana. Comprava perfume da Avon e só escovava os dentes com Signal, aquela pasta das tirinhas vermelhas.

Ele, porém, não tinha sorte com as mulheres. Todos os demais conseguiam namorar. Ademar abordava as meninas e elas saíam correndo. Depois é que se descobriu o motivo. Quando se aproximava da garota, o galanteio de Ademar era sempre este:

-Diz, boa de vara!

As meninas até poderiam ser boas nesse serviço, mas não gostavam da publicidade. E evitavam o galanteio do mais cheiroso e endinheirado do grupo.

Tuta, a essa altura do campeonato, já mudara de nome. Passara a ser Soldado Lucena, número 820, da 5ª Companhia de Infantaria. E foi como Lucena que ele conheceu a mocinha do Pacheco. Magrinha, branquinha, uma marca de cirurgia que lhe riscava do tórax ao umbigo, ela levou-o ao final da primeira semana de namoro para conhecer a família. E a partir daí o Soldado Lucena passou bem. Nos finais de semana trocava o rancho pela galinha saborosa com feijão verde na casa dos sogros. E nos intervalos, aprendia com a namorada os sinônimos para aqueles nomes que ele conhecia grosseiramente no pequeno mundo sertanejo.

Siririca, isso mesmo. A mocinha cochichava no seu ouvido, aproveitando o cochilo dos velhos após o almoço: -Toque uma siririca em mim!” E lá ia o soldado infante aprendendo a usar o dedão da safadeza, o mesmo dedão recomendado pelo Tenente Gomes para ficar estirado na costura da calça em posição de sentido.

Foi a partir desses exercícios físicos fora do quartel que o Soldado Lucena começou a perder peso e a readquirir a magreza que viajara com ele no janeiro de 72, um dia depois das morte de Marçal Lima.

Marçal morreu de madrugada. O coração o levou dormindo. E era novo, 52 anos de idade. Atribuiu-se a sua morte ao excesso de trabalho. O certo é que ao deitar disse que dormiria um sono tranquilo e dormiu mesmo. Não acordou mais.

A viagem a Recife doeu mais por causa disso.

Mas a vida continuou e o rapaz trocou a saudade antiga pela alegria dos novos tempos. Passou a gostar do Exército, mais ainda das estripolias do Pacheco e tentou de tudo para continuar vestindo a farda ao término do ano, não o conseguindo porque o sargento Atanásio disse que ele tinha futuro lá fora e no Exército ficaria marcado pelas rugas das guardas e pela dispensa obrigatória dali a quatro anos, saindo do quartel, como saíam tantos, com uma mão na frente e outra atrás.

Deu baixa e voltou ao sertão na mesma madrugada. Nina ficou chorando a sua saudade e perguntando aos que ficaram onde se metera o seu Soldado Lucena.

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