247 – Em um contundente editorial publicado neste sábado, o jornal O Estado de S. Paulo avaliou que o confronto público entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro revelou “a natureza degenerada do clã” e escancarou as disputas internas pelo espólio político de Jair Bolsonaro. O texto, intitulado “Há algo de podre no reino dos Bolsonaros”, sustenta que a crise familiar lança luz sobre um projeto de poder centrado nos interesses do próprio grupo, e não do país.
Segundo o Estadão, a divulgação de um vídeo em que Michelle Bolsonaro faz duras críticas ao enteado Flávio oferece aos brasileiros “uma pequena amostra da natureza degenerada do clã que tem chances consideráveis de voltar a governar o Brasil”. O jornal afirma que o episódio extrapola a esfera privada porque permite compreender melhor a lógica política do bolsonarismo.
Uma “empresa familiar” voltada ao poder
O editorial traça um histórico da trajetória política de Jair Bolsonaro e sustenta que ele transformou a atividade política em uma estrutura familiar destinada à manutenção do poder.
“O projeto político da família Bolsonaro fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita”, afirma o texto. Segundo o jornal, desde que deixou o Exército, Bolsonaro construiu, ao lado dos filhos, “uma empresa familiar voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família”, não para implementar um projeto de desenvolvimento nacional, mas para permitir que seus integrantes, “sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado”.
O Estadão também recorda episódios da carreira militar de Jair Bolsonaro, mencionando que ele foi punido por insubordinação e chegou a ser acusado de envolvimento em um plano para explodir unidades militares.
Críticas ao projeto político do bolsonarismo
Na avaliação do jornal, o bolsonarismo jamais constituiu uma visão consistente de país.
“O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo”, afirma o editorial. Para o Estadão, trata-se de “uma habilíssima máquina de mobilização emocional” baseada em ressentimentos, teorias conspiratórias e rejeição às conquistas da Constituição de 1988.
Entre os elementos apontados como pilares desse movimento estão o reacionarismo apresentado como conservadorismo de costumes, a desconfiança das instituições republicanas, o desprezo pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, considerado pelo jornal como sua principal força eleitoral.
Disputa pelo espólio político
O Estadão interpreta o embate entre Michelle e Flávio Bolsonaro como consequência direta da ausência do ex-presidente das urnas.
“Sem o nome de Jair Bolsonaro nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político”, afirma o texto.
O editorial observa que Michelle “dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma”, enquanto Flávio se apresenta como pré-candidato à Presidência da República. Os demais filhos do ex-presidente também são citados como possuidores de projetos eleitorais próprios.
Segundo o jornal, “cada um se ocupa de seus interesses particulares – e o Brasil, claro, não entra nessa equação”.
Problemas nacionais ficam em segundo plano
O editorial sustenta que nenhum dos integrantes da família Bolsonaro demonstra disposição ou capacidade para enfrentar os principais desafios do país.
O texto cita temas como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade da economia, o desalento entre os jovens, as dificuldades da educação básica e a violência urbana como questões negligenciadas pelo grupo político.
Na avaliação do Estadão, a estratégia do bolsonarismo sempre consistiu em apontar inimigos — como o PT, a imprensa profissional, o Supremo Tribunal Federal e o chamado “comunismo internacional” — em vez de apresentar soluções para problemas concretos.
Antipetismo não basta
Na parte final do editorial, o jornal reconhece que o bolsonarismo continua politicamente relevante porque o antipetismo permanece presente em parcela significativa da sociedade brasileira. Ainda assim, afirma que essa característica, por si só, não constitui um projeto de governo.
“Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral”, afirma o texto.
O Estadão conclui que Michelle Bolsonaro acabou prestando “um grande favor ao Brasil” ao divulgar o vídeo criticando Flávio Bolsonaro, pois ofereceu aos eleitores conservadores a oportunidade de observar “de que material é feito o bolsonarismo original”. Para o jornal, o episódio pode estimular esse eleitorado a buscar alternativas “genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade”.
