O crime organizado e o serviço público

Miguel Lucena

Recebi com satisfação um exemplar do livro Crime Organizado invade o Serviço Público, de autoria do jornalista e escritor Edmilson Lucena, meu irmão. A obra, fruto de sua longa trajetória profissional e de sua atenção às feridas abertas do país, aborda um tema espinhoso e atual: a infiltração do crime organizado nas estruturas do Estado brasileiro.

Edmilson demonstra, logo nas primeiras páginas, que não se trata apenas de organizações criminosas disputando território nas periferias ou nas prisões. O crime, já estruturado como corporação, encontra meios de penetrar em áreas vitais do serviço público — seja por meio de licitações fraudulentas, de conchavos políticos, de concursos direcionados ou da cooptação de servidores. Essa presença silenciosa compromete a transparência, corrói a confiança social e compromete a própria razão de ser do Estado.

O livro tem o mérito de situar historicamente esse fenômeno, lembrando que a fragilidade das instituições brasileiras, somada à impunidade e à conivência de setores da política, abriu espaço para o crescimento de organizações que hoje disputam poder com o próprio Estado. Não se trata apenas de desvio de recursos, mas de uma captura institucional que mina a democracia.

Outro ponto relevante é a forma acessível com que o autor conduz o tema. Sem se restringir ao jargão jurídico ou acadêmico, Edmilson dialoga com o leitor comum, mostrando de maneira clara como a corrupção e o crime organizado repercutem no cotidiano: na precariedade da saúde pública, na deficiência da educação, na insegurança das ruas.

Há, ainda, um apelo ético que atravessa toda a obra. Mais do que denunciar, Edmilson conclama à ação — seja pelo fortalecimento dos mecanismos de controle, seja pela mobilização da sociedade. A leitura deixa no ar a pergunta incômoda: até que ponto estamos dispostos a enfrentar um inimigo que, muitas vezes, veste terno e ocupa cargos de confiança?

Crime Organizado invade o Serviço Público é, portanto, uma obra de alerta. Ao mesmo tempo que denuncia as engrenagens da corrupção, propõe reflexão sobre o futuro da democracia brasileira. Edmilson Lucena mostra que o crime, quando se instala no coração do Estado, não ameaça apenas cofres públicos, mas a cidadania e a própria soberania nacional.

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