Cármen Lúcia reúne os chefes dos TREs e apresenta sugestões para que não haja possibilidade de contestação ao pleito de outubro

ministra Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, apresentou, ontem, uma carta de recomendação com 10 diretrizes éticas destinadas aos juízes eleitorais. O encontro com os presidentes dos tribunais regionais eleitorais (TREs) visou estabelecer “parâmetros de comportamento adequado aos valores constitucionais” para garantir a imparcialidade e a transparência durante o processo eleitoral deste ano. Nos bastidores do Poder Judiciário, as normas sugeridas pelo TSE estão sendo entendidas como uma prévia do Código de Ética que o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, pretende aprovar na Corte a fim de protegê-la do desgaste de imagem. A ministra, aliás, foi indicada relatora no STF.

As propostas apresentadas por Cármen Lúcia pretende blindar os TREs de influências externas e garantir a lisura do pleito de outubro. O conjunto de regras foca na transparência e na neutralidade, exigindo que magistrados evitem qualquer comportamento que possa sugerir favorecimento ou perseguição política.

A ministra justificou o rigor das normas como uma resposta aos questionamentos sobre as instituições democráticas, frisando que a legitimidade do Judiciário depende da confiança da sociedade.

As recomendações do TSE também têm como objetivo evitar a repetição dos eventos de 2022, quando o processo eleitoral foi contestado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores — ontem mesmo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro voltou a insistir na versão de que o pai foi derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque o pleito não foi “limpo”. Naquele ano, a extrema-direita lançou uma série de inverdades e distorções contra o sistema de urnas eletrônicas e tentou, até mesmo, aprovar no Congresso um projeto de lei que propunha o voto impresso.

Entre os pontos centrais, destaca-se o controle rigoroso sobre a vida pública e digital dos juízes. A proibição de manifestações políticas em redes sociais e o veto à participação em eventos onde haja confraternização com candidatos visam eliminar eventuais conflitos de interesse.

Além disso, a carta reforça a natureza pessoal e intransferível da função judicante, proibindo que outras atividades profissionais ou o recebimento de agrados comprometam o dever do magistrado. A transparência é colocada, sobretudo, como um dever republicano, garantindo que o eleitor receba informações seguras e baseadas estritamente em fatos. A proposta havia sido anunciada antecipadamente por Cármen Lúcia no começo do mês, na sessão de abertura do Ano Judiciário Eleitoral.

Momento oportuno

Para o advogado fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), Guilherme Gonçalves, a iniciativa de estabelecer diretrizes éticas ocorre em um momento oportuno, servindo principalmente para esclarecer condutas e prescrições que, em grande parte, já constam na Lei Orgânica da Magistratura.

“A única preocupação que tenho, que é um pouco diferente dos debates, é uma interpretação excessivamente restritiva da proibição de os juízes e desembargadores eleitorais terem algum tipo de interação, mesmo que seja em eventos, com representantes de partidos e advogados de direito eleitoral. Porque uma interpretação excessiva disso poderia resultar na proibição de desembargadores e juízes eleitorais participarem de eventos acadêmicos que, normalmente, além das palestras, têm confraternizações”, afirmou.

O especialista defende que esse convívio e a troca de ideias em ambientes acadêmicos são fundamentais, porque qualificam a Justiça Eleitoral. Ele afirma ainda que considera positivo deixar as “regras do jogo” bem definidas.

“Tenho 31 anos de experiência nessa Justiça e nunca vi nada, pelo menos na Justiça Eleitoral do Paraná, que pudesse ser enquadrado como uma conduta antiética. Mas, ao mesmo tempo, é preciso preservar essa possibilidade do convívio acadêmico, do convívio do debate, porque isso qualifica e faz a prestação jurisdicional da Justiça Eleitoral ser mais qualificada”, observou.

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